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sexta-feira, 4 de abril de 2014

CPI da Espionagem aponta Brasil vulnerável e propõe nova legislação


Reuters, por Karla Mendes, em 4/4/2014
O relatório final da CPI da Espionagem confirma a vulnerabilidade do Brasil e sugere uma lei que determine o fornecimento de dados de cidadãos e empresas nacionais a organismos no exterior apenas mediante autorização judicial, segundo mostra documento obtido com exclusividade pela Reuters.
A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) foi instalada no Senado Federal em setembro de 2013, após uma série de revelações de espionagem no Brasil pela Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos (NSA), com base em documentos vazados pelo ex-prestador de serviços da agência norte-americana Edward Snowden.
"Os acontecimentos que motivaram esta CPI assinalam... o despreparo do poder público no Brasil para fazer frente às ações de inteligência de outros governos e organizações", atesta o relatório de 301 páginas, que será divulgado oficialmente na próxima quarta-feira, 9 de abril.
O relatório da CPI --que foi presidida pela autora do requerimento de criação da comissão, a senadora Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM), e que teve como relator o senador Ricardo Ferraço (PMDB-ES)-- vai na contramão de declarações da presidente Dilma Rousseff em setembro passado na Assembleia Geral da ONU, em Nova York, quando afirmou que "o Brasil sabe proteger-se".
Até comunicações de Dilma com seus assessores diretos teriam sido monitoradas pela NSA, de acordo com as denúncias de Snowden.
Ao apontar que há "profunda vulnerabilidade do Estado brasileiro e de nossa população a ações de espionagem" e que isso continuará a ocorrer, a CPI conclama que o país "desenvolva mecanismos de proteção do conhecimento e de segurança cibernética".
Segundo o relatório, algumas das vulnerabilidades são consequências da própria infraestrutura de comunicações que o Brasil tem adotado ao longo dos anos. A maioria dos cabos submarinos para ligações internacionais passa por Miami, mesmo que os EUA não sejam o destino final da chamada.
"Estamos entregando informação para eles (os norte-americanos)", alertou o especialista em segurança cibernética Paulo Pagliusi, um dos ouvidos pela CPI, em uma entrevista no Rio de Janeiro.
Há ainda limitações do próprio sistema de inteligência brasileiro. A Agência Brasileira de Inteligência (Abin), por exemplo, não pode interceptar ligações e tem orçamento apertado. Dos quase 530 milhões de reais previstos para a Abin em 2012, 467,2 milhões de reais tinham como destinação gastos com pessoal e encargos sociais, 55,7 milhões de reais para outras despesas correntes e apenas 4,9 milhões de reais para investimentos.
"Não há interesse em investir em inteligência. E se tem medo da inteligência", ressaltou o consultor legislativo do Senado e ex-agente da Abin, Joanisval Brito Gonçalves.
O relatório final da CPI sugere mudanças que aumentem a segurança cibernética do Brasil em quatro grandes linhas de atuação: tecnológica, pessoal, processual e institucional.
A construção de cabos submarinos que não passem pelos EUA, o lançamento de satélite brasileiro e o desenvolvimento de tecnologia nacional são algumas das recomendações. Investimentos em sistemas de inteligência, inteligência de sinais e criptografia também devem ser priorizados.

A Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) recomenda, entre outras coisas, que o governo crie mecanismos de controle para monitorar o ciclo completo de desenvolvimento e produção de hardware e software no país.

A estranha unanimidade



Observatório da Imprensa, por Luciano Martins Costa em 03/04/2014

A leitura diária dos jornais pode produzir um efeito anestesiante sobre a percepção do valor simbólico dos fatos narrados. Na chamada imprensa genérica, detalhes sobre a profissão, idade, gênero ou status social de uma vítima de homicídio, por exemplo, podem alterar os sentimentos produzidos pela notícia: se o morto é um ajudante de pedreiro, ou se é um empresário, se é homem ou mulher, se é branco ou não, se é um jovem de classe média ou morador de favela, são inúmeros os signos que podem definir o efeito sobre o público típico dos jornais, e, portanto, o interesse da imprensa em explorar o acontecido.
Essas são características inerentes a qualquer fato que venha a público através da mídia tradicional. Assim, pode-se imaginar a seguinte situação na rotina dos diários: um menino sai da favela empinando sua pipa e morre atropelado na rodovia; no mesmo dia, o cachorro de uma celebridade escapa da guia e é morto ao atravessar a Avenida Paulista.
Qual dos dois fatos tem mais possibilidade de sair no jornal?
O primeiro acontecimento só vai virar notícia se os moradores da favela decidirem bloquear a rodovia em protesto contra a falta de segurança, vertendo o evento fúnebre em fato social e econômico. Essa característica se repete na política e no noticiário econômico, mas a decisão editorial, nestes casos, não se prende ao interesse de satisfazer a curiosidade ou as preferências dos leitores, mas de influenciar seus valores.
No eixo principal do jornalismo praticado pelos veículos de maior prestígio, o processo decisório se inverte, e a imprensa procura impor ao leitor uma visão pré-elaborada. Na política e na economia, os fatos têm que se adequar à opinião.
Observe-se, sob esse critério, a convergência entre o noticiário político e o econômico nas edições dos três principais diários de circulação nacional de quinta-feira (3/4). Além dos fatos do dia, como a proposta de mais uma CPI no Congresso e a crônica das costumeiras rebeliões nas bases parlamentares em época eleitoral, os jornais jogam com a expectativa de uma pesquisa de intenção de voto que está sendo elaborada pelo Datafolha, e certos fatos econômicos são imediatamente atrelados aos resultados que nem foram anunciados.
Os humores do mercado
Parece claro, para quem ler os jornais do dia, que os editores já estão informados de que a pesquisa irá apontar no dia seguinte uma queda na vantagem que a atual presidente da República, Dilma Rousseff, mantém sobre seus potenciais adversários desde as primeiras consultas.
Numa conexão interessante, a imprensa noticia uma melhora no desempenho da Bolsa de Valores, afirmando que, sondando o mercado, foi detectado um aumento do otimismo por conta de boatos sobre a possibilidade de a atual presidente ter perdido pontos com os eleitores. O fato concreto é que a Bolsa foi impulsionada por um forte ingresso de recursos estrangeiros, subindo 2,85%, com o volume de negócios recuperando as perdas do início do ano.
Há muitos elementos nos próprios jornais a indicar outras razões para otimismo, entre as quais se pode apontar o aumento do investimento estrangeiro direto – dinheiro que compra participação em empresas nacionais ou em infraestrutura – que favorece o movimento de negócios com ações e títulos.
Também se pode afirmar que a Bolsa é influenciada por muitos fatos positivos noticiados pela imprensa no mesmo dia. Por exemplo, o número de famílias paulistanas endividadas é o menor dos últimos quinze meses. Outro exemplo: a produção da indústria cresceu, em fevereiro, pelo segundo mês consecutivo, apontando para um aumento do Produto Interno Bruto no primeiro trimestre. Um terceiro exemplo: dados do Dieese publicados na mesma quinta-feira (3/4) informam que a recuperação do poder de compra dos salários segue em plena força: em 2013, nada menos do que 87% dos reajustes salariais superaram a inflação.
Há outros elementos positivos, como o recuo no preço dos imóveis, abaixo do índice inflacionário do setor. Além disso, embora o IPC aponte um aumento da inflação acumulada para o ano, a expectativa ficou abaixo das previsões da imprensa, mesmo considerando o aumento do preço dos combustíveis e os efeitos da estiagem ou das chuvas excessivas sobre os alimentos.
Mas a imprensa credita o otimismo da Bolsa de Valores unicamente à suposição de que o “humor” do mercado melhorou com boatos em torno da pesquisa Datafolha sobre intenção de voto.
Não seria o caso de investigar esse possível vazamento de informações?

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Papa Francisco proclama padre José de Anchieta como novo santo


Reuters, por Pedro Fonseca, edição de Camila Moreira, em 3/4/2014


O papa Francisco assinou nesta quinta-feira o decreto de canonização do padre José de Anchieta, transformando em santo o missionário jesuíta considerado o "Apóstolo do Brasil" e um dos responsáveis pela fundação da cidade de São Paulo.
Anchieta, nascido em março de 1534 nas Ilhas Canárias, na Espanha, chegou ao Brasil com apenas 19 anos e viajou o país inaugurando missões religiosas e atuando na catequese de índios, inclusive tendo aprendido o tupi.
"Anchieta é santo. Na manhã desta quinta-feira, 3 de abril, o papa Francisco recebeu em audiência, no Vaticano, o Prefeito da Congregação das Causas dos Santos, cardeal Angelo Amato", informou nota no site do Vaticano.
"Depois de ouvir o relatório sobre a vida e a obra do 'Apóstolo do Brasil', o pontífice assinou o decreto que reconhece a figura e a grandeza do missionário, colocando assim seu testemunho como exemplo para os cristãos de todo o mundo."
O primeiro pedido de canonização de Anchieta foi feito há 417 anos. Depois de um novo pedido apresentado em outubro de 2013 pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), o papa Francisco ligou pessoalmente para o presidente da CNBB, cardeal Raymundo Damasceno, informando sobre a canonização, de acordo com o Vaticano.
Junto com o padre Manoel da Nóbrega, Anchieta fundou em 25 de janeiro de 1554 um colégio em Piratininga, onde aos poucos se formou um povoado ao redor que foi batizado pelo missionário de São Paulo, em homenagem ao dia em que se comemora a conversão do apóstolo Paulo.
Anchieta morreu em 1597, aos 63 anos, na aldeia de Reritiba, cidade no Espírito Santo que hoje leva seu nome.


quarta-feira, 2 de abril de 2014

 Por maioria, STF vota contra doação de empresas a campanhas políticas
Julgamento foi interrompido por novo pedido de vista, dessa vez do ministro Gilmar Mendes, mas placar já aponta seis votos a um a favor da ação da OAB
RBA, por Eduardo Marettipublicado 02/04/2014
A maioria do Supremo Tribunal Federal considerou inconstitucional a previsão de doações de empresas privadas a partidos e candidatos no processo eleitoral. No julgamento da Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) n° 4.650, ajuizada pelo Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil, o placar chegou a 6 votos a 1 pela proibição do financiamento das pessoas jurídicas.
O julgamento havia sido interrompido em 12 de dezembro por pedido de vista do ministro Teori Zavascki, que abriu a sessão de hoje com voto contrário ao pedido da OAB. Na sequência, os ministros Marco Aurélio e Ricardo Lewandowski acompanharam a maioria e votaram a favor da entidade.
Julgaram até agora a ação procedente quanto à doação de pessoas jurídicas o relator Luiz Fux, além dos ministros, Luís Roberto Barroso, Joaquim Barbosa, Ricardo Lewandowski, Marco Aurélio e Dias Toffoli. O voto contrário foi de Zavascki.
O ministro Marco Aurélio ressaltou em seu voto o que chamou de “promiscuidade” da relação entre os políticos eleitos pelo atual sistema político e seus financiadores. “As empresas investem em todos os candidatos que têm chances de vitória, e assim modela as decisões de governo e as políticas públicas, e ofende os princípios da democracia, da igualdade, da República e da proporcionalidade”, declarou.
Segundo Marco Aurélio, números do Tribunal Superior Eleitoral mostram que, em 2010, um deputado gastou em média R$ 1,1 milhão na sua campanha, enquanto os gastos da campanha de senador foram, em média, R$ 4,5 milhões e de governador R$ 23,1 milhões. As campanhas para a presidência chegaram a mais de R$ 330 milhões. “Os dados revelam o papel decisivo do poder econômico para os resultados das eleições e que os interesses das elites influenciam o processo”, comentou.
“O Brasil vive profunda crise de representatividade política”, ressaltou o ministro. Segundo ele, há um abismo “entre anseios populares e as ações concretas dos entes políticos”. “Não vivemos uma democracia autêntica, mas uma plutocracia”, afirmou Marco Aurélio.
Ricardo Lewandowski, que presidiu parte da sessão, esclareceu que não faria a leitura do seu voto, mas acolheu em sua fala os números trazidos por Marco Aurélio. “É possível verificar, pelas cifras impactantes, que o financiamento privado afronta o artigo 14 (soberania popular) da Constituição de 1988”, declarou. “O legislador tem o dever de proteger a legitimidade das eleições contra o poder econômico. A vontade das pessoas jurídicas não pode concorrer com a dos eleitores, e muito menos sobrepor-se a ela”, disse Lewandowski.
Sob as atuais regras, contestadas pela OAB, o sistema estabelece uma anomalia pela qual “alguns são mais iguais do que outros”,  afirmou o ministro, citando o livro A Revolução dos Bichos, do escritor inglês George Orwell.
Para o autor do voto vencido, Teori Zavascki, corrupção e abuso do poder econômico não são produto da legislação. "A solução não é eliminar a norma, mas impor controle para se cumprir a sua observância".
Zavascki argumentou que o fato de uma empresa não exercer cidadania “não é argumento” do qual se pode concluir que a Constituição proíbe suas doações.
Em aparte, Luís Roberto Barroso se manifestou dizendo que o atual sistema impede a formação de novas lideranças políticas. “O ingresso na política se dá por sucessão hereditária ou compromisso com o patrocinador. Não atrai ninguém novo e bom para a política.”

Senado

Marco Aurélio mencionou a aprovação, hoje, pela Comissão de Constituição e Justiça e Cidadania (CCJ) do Senado, de proposta que proíbe as doações por empresas, como de substitutivo do senador Roberto Requião (PMDB-PR) a projeto de lei da senadora Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM). Segundo a Agência Senado, como a decisão é terminativa, passará por outro turno de votação na CCJ e, se não houver recurso para votação pelo plenário do Senado, a matéria será enviada à Câmara dos Deputados.
Segundo Marco Aurélio, se aprovada pelo Congresso, a eventual nova lei não teria efeito imediato. “Deve-se observar o principio da anterioridade, o que não se impõe à decisão do Supremo”, explicou.
A questão sobre quando a decisão do STF passará a valer ainda não foi definida. Pelo pedido da OAB, com a chamada “modulação” dos efeitos da decisão, a proibição só começaria a vigorar após 24 meses. A decisão sobre o tema só será conhecida após a proclamação do resultado final do julgamento da ADI 4.650.

O “novo” Aécio é a volta do Brasil de sempre. O da senzala social



Tijolaço, por Fernando Brito, 2 de abril de 2014 
A “coluna social” de Monica Bérgamo, na Ilustrada da Folha de hoje é um retrato sem retoques do que representa Aécio Neves.
Representa Fernando Henrique Cardoso, nada mais, nada menos.
Leia.
É uma visão dantesca do Brasil que, tomara, tenha ficado sempre para trás.
O Brasil governado para o capital.
Não para o povo.
Não para “os que votam como o estômago”, como diz o banqueiro André Esteves.
Esta gente que tem o estranho desejo de comer todo dia, desatenta ao fato de que sempre foi preciso que passasse fome para que os salões do nosso capitalismo brilhassem.
“Esgotou (-se) a capacidade de crescer pelo consumo (da população).”
É como se dissessem: “chega, você já tiveram o que merecem, acabou o recreio, voltem para a senzala social”.
Sonham com a “reconquista” do Brasil, porque não querem o povo brasileiro como parceiro de seu sucesso, mas como uma massa de servos de seus empreendimentos.
Uma elite que não se emenda, que nem mesmo tendo visto do que este país é capaz quando é um só, não aceita os pobres, os negros, os mestiços, o povão senão ali, nas caras telas de Di Cavalcanti penduradas na parede da mansão.
Eles são lindos assim: imóveis, passivos, decorativos.
“Estou preparado para as decisões necessárias, por mais que sejam impopulares”, garante Neves, e um empresário traduz: aumentar as tarifas públicas.
Não o dirá aos que votam com o estômago, mas que importa? Pois se podem ser deixados sem comer, o que é deixá-los sem saber? Eles não estão aqui, senão nos servindo canapés e não entendem o que se diz.
Não vão saber, como não saberão que será vendido o que sobrou do período Fernando Henrique e o petróleo que depois dele se encontrou.
Os negros, os mulatos, os pobres dos quadros de Di Cavalcanti tudo ouvem, porém, nas paredes da mansão.
Fugiriam das telas, se pudessem, para dizer aos seus iguais, de carne e osso o que dizem os “sinhôs”.
Não podem, mas nós podemos.
O que se vai enfrentar nas eleições não é uma decisão sobre o futuro.
É um fantasma do passado.

Aécio: estou preparado para decisões impopulares

Mônica Bergamo
No pequeno púlpito montado na sala de jantar de sua casa, tendo como fundo uma parede com quadros de Di Cavalcanti, João Doria Jr. chama Aécio Neves para falar à seleta plateia de empresários que foram ao encontro com o presidenciável tucano. “Um jovem amigo. Um dos mais valorosos nomes da política brasileira. Ele é o novo!”
Os convidados, que já tinham aplaudido os governadores Geraldo Alckmin, de SP, e Antonio Anastasia, de Minas, voltam a bater palmas.
Mas é quando Fernando Henrique Cardoso é anunciado que o público realmente se empolga.
Empresários como José Luiz Cutrale, maior produtor de suco de laranja do mundo, André Esteves, do BTG Pactual, Guilherme Leal, da Natura, e Luiz Carlos Trabuco, do Bradesco, se levantam para aplaudir aquele que, segundo Doria, é um “exemplo de homem público”, “de ser humano”, “de brasilidade”, “de estadista”. E o grande fiador da candidatura de Aécio.
Antes de ceder o microfone, Doria fala dos 50 anos do golpe militar. “Viva a democracia!”, afirma. E todos, em uníssono: “Viva!”.
FHC se diz “sem palavras”. E inicia um breve discurso de apresentação de Aécio.
Lembrando seu próprio governo, acena com a possibilidade de reformas numa eventual gestão do tucano mineiro. “O reformador só é aplaudido depois de muito tempo.” O Brasil precisa de um novo rumo, segundo ele. “E não dá para mudar com as mesmas pessoas. O cachimbo deixa a boca torta.”
Antes de falar, Aécio chama Armínio Fraga, presidente do Banco Central no governo FHC, para ficar ao seu lado, sinalizando que ele terá papel primordial na condução da economia em seu eventual governo. “Ninguém tem o time que nós temos”, diz o mineiro. “Vou anunciar aos poucos quem estará comigo. Esse time dará confiança ao mercado.”
Aécio segue: “Eu conversava com o Armínio e ele me perguntou: Mas é para [num eventual governo] fazer tudo o que precisa ser feito? No primeiro ano?’. E eu disse: Se der, no primeiro dia’”.
“Eu estou preparado para tomar as decisões necessárias”, diz. “Por mais que elas sejam impopulares.” Num outro momento, repete: “Se o preço [das medidas] for ficar quatro anos com [índices de] impopularidade, pagarei esse preço. Que venha outro [presidente] depois de mim”. Sua ambição, diz, não é ser querido. E sim “fazer o maior governo da história do país”.
O tucano não detalhou que medidas seriam essas. Um dos empresários disse à Folha: “Ele está querendo dizer que vai reajustar tarifas. Não dá mais para empurrar com a barriga, como o governo [Dilma Rousseff] está fazendo, por populismo”.
Começam as perguntas. O banqueiro André Esteves diz que o país vive numa “armadilha do baixo crescimento”, em que se “esgotou a capacidade de crescer pelo consumo”. “Temos que investir” e, para isso, o governo tem que despertar “a confiança”.
Horacio Lafer Piva, ex-presidente da Fiesp, pergunta como o presidenciável fará sua mensagem chegar “aos que votam com o estômago”, referindo-se aos beneficiários de programas sociais do governo. Jorge Gerdau pede que ele se comprometa a não aumentar a carga tributária.
Depois de responder a todas as perguntas, Aécio Neves se despede com uma brincadeira: “Se tudo der errado, eu tenho um craque para entrar em campo”. Ele, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

Lei sobre trabalho doméstico completa um ano e espera regulamentação




Hoje (2) há ato público previsto na Câmara para lembrar a 
promulgação da PEC. Enquanto isso, projeto de lei complementar segue à espera de votação no plenário

 RBA, por Viviane Claudino publicado 02/04/2014

A aprovação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) das Domésticas foi um dos destaques no Congresso Nacional em 2013. Na promulgação da lei, que iguala direitos dos trabalhadores domésticos com os demais trabalhadores urbanos e rurais, houve comparações com a abolição da escravatura. No entanto, nesta quarta-feira (2) completa-se um ano da promulgação da Emenda Constitucional 72 e os principais interessados ainda aguardam pela regulamentação.
Representantes dos empregados esperam que a votação ocorra ainda esta semana, mas consideram insatisfatórios alguns aspectos do texto e tentam incluir emendas no projeto. "Na verdade, não está nada igual aos dos outros trabalhadores. Se for aprovado do jeito que está, o projeto vai precarizar mais o trabalho doméstico. Queremos que a lei seja regulamentada da forma como foi aprovada em abril de 2013", afirma a presidenta da Federação Nacional das Trabalhadoras Domésticas (Fenatrad), Creuza Maria Oliveira.
Segundo ela, é necessário discutir alterações que garantam as mesmas regras aplicadas aos demais trabalhadores no que diz respeito, por exemplo, à solicitação do seguro-desemprego. “Do jeito que está, só teremos direito a pedir o seguro-desemprego se tivermos um contrato de trabalho de, no mínimo, 15 meses”, diz.
Entre os pontos sem consenso também estão questões referentes ao FGTS. O texto aprovado pelo Senado prevê que empregadores paguem o total de 11,2% do salário do empregado, sendo que 3,2% devem ser destinados a uma conta separada para pagamento da multa de 40% em caso de demissão sem justa causa. Os trabalhadores defendem que o valor recolhido seja de 8% do salário.
Em julho do ano passado, a Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ) do Senado aprovou o Projeto de Lei 224/2013, que regulamenta a Emenda Constitucional 72. A proposta não seguiu para análise na Câmara dos Deputados.
Hoje (2), às 16h, há um ato público previsto na Câmara para lembrar a promulgação da PEC. Enquanto isso, o Projeto de Lei Complementar 302/2013 segue à espera de votação no plenário.
A federação defende, ainda, jornada diária de oito horas e quer discutir pontos divergentes, como o pagamento de auxílio-creche, salário-família, obrigatoriedade de pagamento do imposto sindical e fiscalização no local de trabalho. Em 2012, conforme a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), do IBGE, 6,355 milhões de pessoas exerciam trabalho doméstico. Do total, 92% eram mulheres e 70% não tinham carteira assinada.

terça-feira, 1 de abril de 2014

Fiel aos EUA e querido pelo mercado, México 'criou' 2,5 milhões de pobres após a crise


País responde por 83% dos latino-americanos lançados abaixo da linha de pobreza, segundo Banco Mundial. Nações que apostaram em fortalecimento do papel do Estado tiveram resultado oposto

por Redação RBA publicado 01/04/2014 

Os dois primeiros anos da crise econômica que teve início em 2008 e ainda hoje prejudica as economias dos países desenvolvidos fizeram com que 3 milhões de latino-americanos fossem empurrados para a pobreza ou não conseguissem sair dela – desses, 83% são mexicanos, o equivalente a 2,5 milhões de pessoas. Os dados são de um estudo do Banco Mundial cuja íntegra será publicada em junho.
O México foi um dos países da região que adotaram a receita ditada por Europa e Estados Unidos para lidar com os efeitos da crise: corte dos investimentos do governo em benefícios sociais e programas de criação de emprego e renda, além de pagar auxílios ao combalido mercado financeiro para salvar bancos da falência.

A diretora de Economia e Desenvolvimento Humano na América Latina do Banco Mundial, Margaret Grosh, uma das autoras do estudo, disse à Agência Efe que a queda dos trabalhadores à pobreza se deve à depressão econômica e à diminuição de renda. Ao mesmo tempo, um grande contingente que "teria saído da pobreza porque seus países estavam crescendo antes de 2008" não cruzou a linha pois a crise não os permitiu, afirmou Margaret.

"É importante considerar isso, porque quando apareceram os primeiros números de pobreza, a tendência foi pensar 'ah, a situação não é tão ruim', mas muitos poderiam ter abandonado a pobreza, e a oportunidade se perdeu", explicou. Margaret também observou durante a elaboração do estudo que, na maioria dos países, o maior impacto da crise foi sentido entre as pessoas que mantiveram seus empregos, mas que, no entanto, perderam entre 10% e 15% de sua renda.

O efeito sobre a pobreza na região foi especialmente sensível, na opinião de Margaret, porque a região "é particularmente desigual, por isso existe uma preocupação especial com a pobreza e a distribuição de renda, porque as famílias mais pobres simplesmente não podem se permitir uma queda de sua renda".

Ainda assim, países como Brasil, Uruguai e Equador, que apostaram em uma orientação inversa para o poder público, com manutenção dos programas sociais e maior investimento no setor produtivo do que no mercado de capitais, conseguiram continuar crescendo e sem aprofundar desigualdades. "O impacto foi muito diferente de um país para o outro", comentou a especialista.

Apesar dos dados e de sua particular sensibilidade diante de um potencial aumento da pobreza, Margaret destacou que a América Latina não foi a região mais afetada pela crise, pois ficou atrás de Europa Oriental e Ásia Central. Os problemas na região foram consequência em grande parte "dos modelos de comércio e dos parceiros comerciais" da América Latina. Este segundo ponto afetou especialmente o México, já que grande parte dos parceiros comerciais do país são dos Estados Unidos, onde a crise teve um impacto direto.